terça-feira, outubro 05, 2004

Reflexão sobre trabalho e dinheiro - por Fernando Paço

“O único lugar onde a palavra dinheiro vem antes do trabalho é no dicionário”. A frase resume bem a relação que há entre o valor do dinheiro e sua fonte geradora, a labuta. É salutar imaginar evidentemente que dinheiro só se conquista com suor e neurônios, uma forma digna de merecimento, mas também há os que conquistam sem precisar levantar um dedo. Qual é sua posição em relação ao dinheiro e ao trabalho? Como você lida com estes valores?
Analisemos primeiro o cenário contemporâneo em que vivemos, o nosso complexo mundo, globalizado, vertiginosamente tecnológico, competitivo, onde mercado e informação são os deuses onipresentes da nova era, a comunicação, a mídia (já estou cansado desta banalizada palavra), e o marketing como ferramentas poderosas de formação, ou deformação, da sociedade. Agora analisemos você, um indivíduo, na sua mais ínfima presença, desde o nascimento a procura de uma identidade, sozinho, inquieto diante do próprio questionamento, de onde viemos para onde vamos, complexo, e sempre indefinido, acredito até o fim da vida, pois não somos seres estanques e sim mutantes. Pois bem, nos coloquemos neste mundo e indaguemos como nos relacionamos com ele, com o nosso trabalho e o dinheiro.

Existem diversas formas de lidarmos com esta tríade, para muitos o mundo está perdido, para outros haverá sempre esperança, enquanto uns acreditam no fim, outros defendem o progresso. Em relação ao trabalho e dinheiro também há contrapontos; falta de interesse para muitos, interesses ao extremo para outros (vide os workaholics), os explorados demasiadamente, e os incentivados, e por aí vai. Não estou entrando no mérito da grave questão do desemprego no mundo, o que daria pano para manga para outra reflexão, mas sim para uma analise sobre a população economicamente ativa e sua relação com a produção e o meio em que vive. Desemprego e falta de dinheiro merecem ser analisados com maior relevância em outro momento.

Portanto, o trabalho é encarado de distintas formas. Acredito que a grande maioria encara o modelo de trabalho a sua forma mais burocrática, com regras e horários rígidos, relações hierarquizadas, centralizadas, organizadas em padrões bem definidos, enfim é o paradigma vigente nas grandes corporações e multinacional, e também em diversos setores de produção, talvez seja um ranço de modelos anteriores. Claro que há exceções, mas a idéia dominante de se ter um trabalho deste tipo está associado diretamente ao seu maior objetivo: Ascensão econômica e status. Você é aquilo o que você produz. Quero me enquadrar no modelo, competir e vencer. Ser é ter.

Por outro lado, ampliando as possibilidades desta analise, imagino que o trabalho deva ser encarado de forma mais flexível, sem separações de tempo, espaço e convívio humano, e sim agregar o próprio trabalho, ao estudo, ao lazer, simultaneamente, privilegiando o tempo livre, as amizades, as atividades lúdicas com responsabilidades inerentes. Parece-me algo utópico, pode ser, mas não impossível.

Como conseqüência ambos geram evidentemente riquezas. Cabe, portanto, distinguirmos o significado desta palavra para cada situação. Para um capitalista, a riqueza se limita ao dinheiro tão somente. O parâmetro é o acúmulo. Sua avidez pelo dinheiro é doentia, beira a insanidade. Não que o dinheiro seja algo “sujo” não é esta a questão, mas torná-lo o centro é o problema. Já para outros o dinheiro é um meio, utilizado para se chegar à riqueza: acesso maior a cultura, arte, criação, desenvolvimento do conhecimento, troca de informações, ampliação do convívio humano e das amizades. Enfim, seu maior patrimônio é o crescimento pessoal e intelectual, o importante é ser, e não ter.

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