sexta-feira, dezembro 05, 2008

Debate sobre poesia - Estação das Letras.

Questões sobre poesia debatidas na oficina da Estação das Letras. Perguntas levantadas pelo poeta Carlito Azevedo de 26 de novembro a 03 de dezembro de 2008.
do site oficial: http://www.fernandopacoborges.com/


1. Carlito Azevedo: A sua produção poética atual já se dirige, em seu entendimento, para a feitura de um livro de poemas, ou você a considera como uma série de tentativas e experiências que:

a. Visam a "treinar" a mão e a mente, razão e sensibilidade, para a futura produção dos poemas que você pretende escrever;

b. Tentativas e experiências cuja coerência interna, que supostamente deve entranhar todo livro, você ainda não conseguiu vislumbrar, mas que surgirá menos de um esforço consciente do que de certo remanejamento que cada poema impõe ao conjunto em que é inserido;

c. Outros.

Fernando Paço Borges: A intenção de publicar existe. Escrevo poemas sem ter em mente um plano preestabelecido de unidade. Aleatoriamente, os poemas vão me indicando caminhos. O processo é complexo, exigindo constantes remanejamentos. Poemas que tematicamente podem ser díspares por um lado, por outro me agradam pela forma ou pela combinação de ritmos e idéias. A disposição mais harmoniosa, as releituras exaustivas, as críticas na oficina literária vão aos poucos me direcionando para uma possível publicação.

2. Carlito Azevedo: W. H. Auden costumava dizer que um poeta só é poeta no instante em que coloca o ponto final em um poema, pois antes disso é apenas um poeta " em potencial", e depois disso é "um sujeito que parou de escrever". Comente isso em relação à sua experiência com a criação poética.

Fernando Paço Borges: Um poema depois de um ponto final se torna mesmo algo dramático. É o vazio a ser preenchido pelo próximo poema, que não se sabe quando virá, se em um minuto, um dia ou um ano. E quando chega, novamente necessita de um outro ponto final. Assim por diante, num desassossego cíclico. Neste sentido um ponto final pode ser literalmente um ponto final ou a busca de uma reinvenção de si mesmo, ponto a ponto. Caminho esse longo, com o qual me identifico.

3. Carlito Azevedo: Uma história do poeta francês Max Jacob: ele leu uma entrevista do milionário Rockefeller onde este dizia que só se tornou o homem mais rico do mundo porque desde criança, a tudo o que via, a todos que conhecia, a cada sensação experimentada, a cada cálculo ou acidente fortuito, a tudo enfim com que deparava perguntava-se internamente: "como isso pode me tornar um sujeito ainda mais rico".A partir disso, Max Jacob comentou que se no campo das finanças isso pode não ser muito ético, no campo da poesia é maravilhosamente certeiro: a tudo o que nos ocorre ou deixa de ocorrer, permanecendo no paraíso perdido das possibilidades não cumpridas, a uma paisagem, a uma frase entreouvida, a uma determinada combinação de cores em local inesperado, a um momento especialíssimo ou totalmente rotineiro e banal, a uma notícia de jornal, a tudo isso devemos nos perguntar: como isso pode nos tornar um poeta ainda melhor? Pense em qualquer coisa que tenha visto, sentido ou ouvido, em qualquer situação insólita ou comum, que em nada lhe tenha despertado a vontade de escrever um poema ou desenvolver qualquer reflexão sobre poesia, e tente ver o que aquilo pode ter com a poesia que você quer escrever, de que modo aquilo pode torná-lo(a) um poeta ainda melhor.

Fernando Paço Borges: Penso que para o poeta tudo é matéria para desentranhar a poesia. O desafio é este, abrir o canal da percepção para as coisas menos importantes também. Por exemplo, observar uma fruta em cima de uma mesa pode ser tão proveitoso quanto fazer um passeio no bairro e presenciar um assassinato. Neste universo de possibilidades, o poeta pode extrair o seu melhor. Ele arrisca, capta um fato, obscuro ou claro, ético ou antiético, filtra a experiência, nobre ou banal, e por fim dá o seu registro de forma única e comovente. Tudo o que pode torná-lo um poeta ainda melhor é o combustível essencial que o move.

4. Carlito Azevedo: Qual pensa que é a melhor qualidade de sua poesia? E qual o defeito ou fraqueza contra o qual você mais tem que lutar na hora da criação, justamente por ser o que mais recorrentemente o atinge ou tenta atingir em seus escritos?

Fernando Paço Borges: Creio que uma qualidade que encontro em meus poemas está na criação de boas imagens. Busco aliar as melhores metáforas sempre a um texto mais simples e conciso. Quanto ao meu defeito este ocorre, algumas vezes, numa primeira idéia lançada em algum novo poema. Tomo cuidado, sempre que possível, para que o texto não resvale no campo do julgamento, no campo sentimental, ou na grandiloqüência.

5. Carlito Azevedo: Há lindos poemas obscuros , como esse:

Cristal( Paul Celan)

Não busques nos meus lábios a tua boca,
nem diante do portão o forasteiro,
nem no olho a lágrima.
Sete noites mais alto muda o vermelho para vermelho.
Sete corações mais fundo bate a mão à porta.
Sete rosas mais tarde rumoreja a fonte.

E há lindos poemas de absoluta clareza, como esse:

POEMAS SÓ PARA JAYME OVALLE ( Manuel Bandeira)

Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já tivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei.
Bebi o café que eu mesmo preparei.
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...
- Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.

Então, em relação à sua produção poética e aos seus gostos poéticos, o que você diria:

a. A obscuridade, o mistério, o grau de inteligibilidade muito relativo são defeitos a evitar em nome de uma clareza mais democrática, de uma inclusão maior do leitor, que do outro modo se sente excluído do texto.

b. A obscuridade, o mistério, o grau de inteligibilidade muito relativo são uma necessidade absoluta para não baratear simploriamente uma experiência complexa, de caráter realmente mais tortuoso, afinal o poeta não está aqui pra resolver problemas para os outros, e sim para mostrar que a coisa mais simples pode conter em si megawatts de mistérios que só a automatização do nosso olhar nos impede de ver.

c. Outros.

Fernando Paço Borges: Eu procuro a simplicidade e a inclusão do leitor na experiência do texto. Busco na minha satisfação a sua identificação. Não condeno o obscuro nem a clareza. Creio que pode haver uma interessante mistura destes exercícios em um poema. O importante é a qualidade na combinação das palavras, cercadas de mistério, bons ritmos e boas idéias. Seja numa quebra sutil de um sentido, seja na escrita de um verso simples, coloquial, mais inteligível.

6. Carlito Azevedo: Segundo Baltasar Gracián, grande autor barroco espanhol, quando falamos de nós mesmos:

a. nos bajulamos (o que é idiota)
b. nos recriminamos ( o que é estéril)
c. ficamos logo sentimentais ( o que abre o portal para a pieguice);

sem discutir obrigatoriamente esses três pontos, como você pensa a utilização do "eu" na poesia, na sua poesia? Se puder termine seu comentário com exemplos analógico do gênero:

O "eu" na minha poesia age como um espião.
O "eu" na minha poesia está mais para o bandido que para o mocinho.
O "eu" na minha poesia entre o balé e a revolução, fica com o balé.

Fernando Paço Borges: O meu "eu" é um observador curioso a tudo o que é novo, inimaginável e impensado. Acho que me incluo na seara dos poetas espiões que ficam a espreita do imprevisível. Procuro, sem disfarce, ser nulo, um sujeito oculto, sem ser visto como um bandido, mocinho, revolucionário ou amante de balé. Fico com a nulidade que oferece as melhores lupas aos poetas.

7. Carlito Azevedo: Ezra Pound dizia que a maior qualidade que encontrava em um poeta era a sua curiosidade. Quando procurado por poetas estreantes, colocava sua confiança menos naqueles que já porventura demonstravam alguma habilidade técnica ou algum poema plenamente realizado, e mais naquele que mesmo que não apresentasse a princípio nenhum texto digno de nota, mostrava-se o mais curioso em relação às coisas. Sua recomendação aos poetas era: "Curiositas". Inclusive pela poesia. Mais do que aquele jovem que apresentou um bom poema, Pound apostava naquele que mais suava frio ao saber que ia ser lançado um novo volume com traduções da poesias de François Villon, e que dormiria mal até o dia seguinte, quando correria para a livraria atrás do volume querido, o que me lembra muito essa estrofe de Wallace Stevens:

Um poema como um missal achado
na lama, um missal para esse moço

o estudante que mais arde por aquele
livro exato, ou menos, uma página,

ou pelo menos uma frase, aquela frase,
gavião de vida, aquela frase latinada:

saber; missal para ruminar. Olhar
nos olhos do gavião e recuar

não do olho, mas do prazer de vê-lo.
Eu toco, mais isso é que eu penso.

( " O Homem de violão azul")


Lembre de uma ocasião em que um livro foi lançado, uma exposição inaugurada, um filme ou peça entrou em cartaz, qualquer coisa assim, que tenha te deixado num estado desses, achando que ver aquilo era mais importante do que quase tudo. Falta de curiosidade para um poeta é igual a quê?

Fernando Paço Borges: Tenho fascínio por tudo que envolve a criação de imagens na arte. Falta de curiosidade artística, em geral, não faz sentido a quem pretende escrever poemas. Ver um quadro de Velásquez, Edward Hopper, um filme de Wood Allen, um romance gráfico de Will Eisner, uma arquitetura de Richard Meier, ler os poemas de Ferreira Gullar, de Manuel Bandeira, Drummond são experiências irreversíveis e transformadoras do meu olhar sobre o mundo. Cada vez que eu vejo uma grande obra, seja na poesia, na pintura, no cinema, nos quadrinhos, na arquitetura, tenho a sensação de que tudo já fora eficientemente criado. Neste sentido, o poeta deve se inteirar a outras formas de linguagem. Se informar sempre, para não cair um dia no engano, na obviedade, ou no pastiche.

8. Carlito Azevedo: De um poema, o que se pode esperar?
a. a verdade?
b. o entretenimento?
c. Um pensamento?
d. Uma lição de vida?
e. Coisas mais abstratas como: que aumente nossas dúvidas em vez de nossas certezas? f. Compare uma viagem que fez a um lugar distante e as impressões que trouxe de lá, com o mergulho fundo em um poema e as impressões que traz dele.

Fernando Paço Borges: Um poema é um registro novo de linguagem, uma reinvenção sobre algum pensamento desassossegado, ou um arroubo estético (seja vindos do mundo real ou imaginário) para no fim alcançar um sentido simbólico. Se o poeta esbarra na verdade, no entretenimento, no pensamento, não há fórmulas. Acredito que um bom poeta trabalhará sempre com a sua matéria-prima fundamental, a incerteza. Abaixo segue um poema extraído de uma viajem que fiz a Nova Iorque. Poema com imagens que poderiam se repetir em qualquer lugar do mundo. Tão distantes e ao mesmo tempo tão próximas.






Notas subterrâneas:

Uma gorda deforma
a América no peito.


Sua beleza
levará 450 anos para se decompor.


Sob o vermelho do cabelo,

íris de sonhos inaudíveis
lêem o jornal alheio.


Ao lado das más notícias,
entre seios e anseios,
uma idosa masca uma goma inexistente.

A única certeza às 18:30h:
Executivos são lebres hipertensas.

Na estação seguinte a gorda salta
e deixa cair seu lenço fluorescente.


A queda do lenço paralisa o trem.
Depois o metrô retoma o seu funcionamento.


Do imenso segundo
tudo parece adiante um novo caminho.